Para recordar…

zoom_bee - 2005/03/07

Andava eu a remexer aqui nos papeis qd encontrei umas folinhas agrafadas que resolvi espreitar… ri até não poder mais, sei que os “velhinhos” já conhecem isto, mas como chegou muita gente nova resolvi publicar este já bem antiguinho “baptismo de Geocaching” de um conhecido amigo nosso…relatado pelo próprio! Ó adivinhem lá quem é…

“Olá pessoal

Depois da confusão das marcações de sexta, acabou por se combinar, para Domingo, um passeio gastronómico para os lados da Ericeira.

A desculpa foi o pequeno almoço do Rui não poder ser feito com putos burbulhentos. Lá chuva e frio podia haver. Agora malta a fazer cavalidades é que não.

O local de encontro foi marcado para umas bombas de gasolina que ninguém conhecia as umas horas impróprias, 10 da manhã de domingo! Mais ou menos a essa hora, lá estavam 4 motas. O Virgílio, (ainda a dormir), mais a Teresa dele, um bocado pró aborrecida, "…afinal, tira-me da cama esta hora e vem dormir práqui…", o Ricardo e a Silvia, o Rui e a Cristina e eu mais a EIvira. Faltava o Miguel e a Vanessa, mais o Zé Carmo e a "Maria" dele. O Miguel ainda esta a convencer a Vanessa e o Zé a ganhar vontade para se levantar. Esperamos cerca de meia hora e depois de vários encantamentos, maldições e esconjuros lá nos decidimos. Mesmo assim o Rui não se calava a dizer que estava cheio de fome e que o tratamento tinha acabado. Devia ter… foi o primeiro a chegar!

Bute direito á Ericeira, curvas para lá curvas para cá, nevoeiro, frio, quase a chover, verão este ano só para o ano!
Lá se descobriu uma esplanada razoável. Como de costume, a cena do estacionamento demorou aí uma hora. Motinhas alinhadas, cadeados montados, capacetes, casacos e luvas devidamente orientados, vamos sentar. O Rui aos gritos a dizer que ainda desmaiava. As tias da Ericeira, todas enxofradas, um magote de motoqueiros, á bulha com cadeiras e mesas metálicas, a virar a esplanada de pantanas. E não só para se sentarem. Cada um ocupou uma cadeira para por o rabo e outra para por a tralha. 8 tarados. 16 cadeiras! Imaginem a esplanada depois de tudo sentado…
Faltava pouco pró meio dia! Pequeno almoço. "O que é que há"? "Há tudo"! "Croissants"? "Quê"? "Vigor"? "Hãm"? "Pasteis de Nata"? "Onde"? Vai de pôr o espírito de busca em ON! "QuéQuê estes tansos estão a morfar"? Tudo escandalizado, com 8 tipos a mirar, a descarada, o que é que o vizinho do lado estava a tentar meter na boca! Torradas e chazinho! Meias de leite. O empregado ia-se passando, só em torradas demorou algumas 5 viagens. Do outro lado da rua um restaurante empestava o ar de cheiro de sardinhas assadas. Para cumulo, as torradas até eram muita boas. Segunda rodada. O Rui já só reclamava quando tinha a boca vazia.

Lá se viram livres de nós! Ainda não tínhamos chegado ao pé das motas e já se ouvia uma voz lá do fundo: "Onde é que vamos almoçar"? Quem é que havia de ser? Ouviu-se um som seco, um "ai" abafado e um deles, que entretanto apareceu com uma bochecha vermelha, nunca mais falou em comida…
Parece que o tratamento ainda não tinha acabado. Mas não é que a ideia pegou? Agora que se ia passando era eu… "Mais comida, já? Não"!!

Diz o Ricardo "Êh pá e se fossemos jogar um jogo muita giro". Jogo? Á hora de almoço? "Com estes tipos só a pensar em comida?" Só se for descobrir onde pára o bife? "Não, houve um tipo que escondeu umas coisas aqui perto, vamos lá ver!" Um jogo tipo "ilha do tesouro dos pobrezinhos", mas a seco! Por falar em seco…
Bem… o outro já tinha levado uma galheta, era melhor não refilar! Vamos lá, pode ser que dê para nos baldarmos no primeiro cruzamento… Para mal dos meus pecados, era mesmo em direcção a casa, alem disso, espetaram comigo no meio da fila, mesmo que me baldasse dos primeiros, herdava os do fundo da fila! Vamos andando. Achei estranho quando passamos no mesmo sitio pela 3° vez! Olhei para o da frente e quem era? Um papuço a olhar para um GPS!! Valha-me Deus! Lembram-se do tipo que queria montar o GPS a ser alimentado pela Mota? Ligou aquela porcaria com a polaridade invertida… Brilhante futuro!

Fiquei a conhecer a largura dos becos todos desde Mafra até a Pêro Pinheiro. Dei a volta á Lambreta práí cinquenta vezes. Verdade! E porque desisti de contar a meio…E como não era o Virgílio que ia á frente, nem sequer tivemos direito a umas rotundas, era mesmo num sitio qualquer. A subir, a descer, com terra, no meio do Auto-estrada, nos cruzamentos, nas curvas. Uma festa.
De repente param. Penso eu "desistiu"! Qual quê. Um caminho de cabras com ar abandonado e tufas aí vai ele. O segundo desata aos gritos e vira pró mesmo lado. Páro eu, pára o Rui, diz a EIvira: "Também me apetecia fazer xixi?" "Foram fazer o quê? XiXi? Os dois?" "Só se for para se ajudarem", diz alguém. O tal caminho tem ar de não ter saída, "depois do xixi" pode ser que passem por aqui.
Paramos as motas á sombra e despimos os blusões que eram quase 2 horas e o sol já tinha aparecido. Ouvimos ao longe, rororo para cá rororo para lá! "Que se passa"? "Eles estão mesmo ali vamos lá ver"!

Chegamos lá e vemos as "Marias" deles a pé com ar triste. Um dum lado, outro doutro, de um riacho manhoso, aos gritos: "Já só faltam 500 metros"!!!! "Para que lado"? "Não sei! Isto só funciona a andar, parado baralha-se todo". Quem diria… Realmente o zingarelho mostrava uma seta enorme a apontar… para o lado de onde tínhamos vindo. Cada vez que alguém mexia no GPS a seta apontava para um sitio novo. Ainda bem…

Cena de romance. Bucólico. Arvores. Passarinhos. Ar do campo. Um riacho a correr. E o outro do lado de lá do riacho, que tinha ar de decapante fluido, mas ainda assim todo contente. Nesta altura já as "marias" todas estavam cansadas de andar a chapinhar para cá e para lá, porque enquanto se discutia a melhor estratégia para desligar aquela coisa, um andou a convencer as garotas a fazer circuitos turísticos entre poças de lodo e limos ranhosos. Quando conseguimos convencer o dono do GPS que alem de não ter tido juízo quando comprou aquilo ainda era mais maluco por acreditar no que lá dizia, enfiam todos á desfilada, pelo primeiro beco que encontram. Imaginem: perdidos entre Sintra/Mafra/Ericeira, com um GPS anedótico, á procura do tesouro! E viram logo no "cruzamento" errado. Acabam todos numa horta de alfaces. Ainda por cima com o Rui, volta e meia, aos gritos: "É por aqui"! Quando íamos a ver, lá estava ele a apontar para o tal riacho manhoso. Com ar sério.
Ah!!! O GPS a divertir-se á grande, cada vez estávamos mais longe. E as motas espalhadas aí por 100 metros de um trilho de tractores. Diz um, "deve ser ali", apontando para o que parecia ser um grupo de menires. Acabou o jogo? Qualquê! Apontava exactamente na direcção de um monte, aí com 500 metros de silvas, urtigas, mato, cobras, minhocas, lesmas, carraças, pedras, arame farpado, paredes derrubadas e grandes pedregulhos. Lembrem-se, as meninas tinham sido convidadas para ir tomar o pequeno almoço á Ericeira! Sapatinho de vela, saltinho alto, sandalinha, monoquini, tanga, calçâozinho minúsculo, blusinha diáfana e camisolinha da alça. Motim! Só não nos deixaram lá, porque não se conseguiram lembrar para que lado era a saída.
Bem, quando desligaram o TLM depois de falarem com os advogados, lá voltamos á estrada. Nem uma alma, nem um carro. Só burros… Como á muito tempo que não nos enganávamos, o tipo lá da frente, mesmo no meio duma subida cheia de curvas, resolve fazer inversão de marcha. Vai tudo, bufo daqui, bufo dali, puxa daqui, empurra dali, virar as lambretas. Quando olhamos de cada lado da estrada, bichas e bichas de automóveis parados! De um lado quase chegava ao Ramalhão, do outro passava, de certeza, Mafra. Todos a gozar, claro! Mesmo assim não fizemos figuras muito tristes. Imaginem se algum artista tinha tentado virar a mota em cima do descanso. Devia ser risota geral, caso para noticia de abertura no telejornal. Mesmo assim fica nos anais da região como "O dia em que houve engarrafamento". "Gajos das motas provocam dificuldades no transito". "Presidente da Junta é demitido porque a Concentração não tinha saneamento básico", "Primeiro ministro visita zona dos distúrbios".
A vergonha era tanta que os artistas da frente enfiaram pelo meio do campo á desfilada. "Outra vez xixi"?
"Ali não há rotundas para dar a volta"! "Achas que podemos dizer que os perdemos"?

De repente um tipo lá ao fundo a esbracejar e a gritar. "Êhpá! Que é que aconteceu"? "Vamos lá ajudar"! "Queres ver que se espalhou"! "Foi atropelado por um touro"! "Ficou envergonhado por fazer xixi a pé de um burro". Não. Felizmente tinham encontrado um lugar para estacionar! E já estava um a pôr cadeados… No meio de nenhures, perdido num campo de trigo, sem vivalma, a 500 metros de uma aldeia abandonada, no alto de um monte, uma Varadero vermelha derreada de cadeados! Arre que é mania! Vai na volta, ainda ligou o alarme… E o outro de GPS na mão a dizer: "Não se preocupem, agora é a descer". Só podia, porra! Estávamos mesmo no alto do monte! "Quanto é que falta"? "500 metros"!
Irra! Desde que saímos da Ericeira que a porcaria do aparelho dizia sempre 500 metros. "Deixa cá ver"!
Era o autocolante de protecção do ecrã! Tinha uns símbolos a enfeitar! "Bem se é a descer, vamos lá..".
"Xiça pá! Eu sei que é a descer, mas convém que desçamos todos para o mesmo lado"!
Para encurtar… lá demos com a tal Aldeia, Broas de seu nome. Abandonada desde 1967 quando o ultimo habitante, uma velhota chamada Inês, fugiu para casa de filha por causa do terramoto. Mal ela sabia que o "terramoto" só chegava ao domingo, 35 anos depois…

"É por aqui, é por ali"! "Chegamos"! "Bem, agora só temos de descontar o erro do GPS e damos com a coisa"! "Erro do GPS? Habituados a isso já nós estamos… Erro do GPS… ERRO DO GPS? QUE É QUE TU QUERES DIZER COM ESSA MERDA DO ERRO DO GPS"??? Lá os desengalfinhamos e lentamente, muito lentamente se explicou que, devido a …blábláblá…, os GPS actualmente tem um erro de um ou dois metros. "Besta! Não podias ter dito logo…"! "Pá, pensei que soubesses"! "Pensei que soubesses!. Pensei que soubesses! Da próxima vez ficas preso nos cadeados da mota". "E agora"?.
"Dizia lá que era num sitio relacionado com água e dava jeito trazer um puto pequeno". Ouve-se uma voz lá no fundo: "Se vamos ficar á espera de encontrar o tesouro, ainda temos tempo de fazer um…!" ."Afinal o que é que andamos á procura"? "óh seu parvo, agora é que te lembras de perguntar"? "Sagres de litro! Eu vou procurar uma Sagres de litro"! "Onde é que há Sagres de litro"? "Se encontrares uma mini…", "Eu cá preferia uma preta"!
Outro ruído seco, outro ai abafado, outro olho negro. "Eu já te dou a preta, se também quiseres uma mulata é só pedires…". "Peráí que ainda estragas o homem, olha que temos que encontrar uma caixa de plástico, tipo taparuere, com coisas lá dentro".
"Vocês querem que EU VÁ PROCURAR O QUÊ? TAPARUERES"? "Êhpá é para ser estanque"! "Eu não acredito, 3 da tarde, um calor filhadamâe, uma aldeia abandonada, 8 artistas de cu pró ar á procura de um taparuere"! "Alguém me esta a gozar"! "E onde é que está o bom do taparuere"?

Mais á frente uma casinhota de cão. Segundo a descrição era um poço comunal, mas tinha mais ar de casota de cão. "Pode ser ali"… Uma abertura pequenita, o Rui a gatinhar lá para dentro, a revolver as pedras, a laje do cimo abanar, a Cristina aos gritos, tudo a fugir e aparece um mão por um buraco com um taparuere, de alguns 5 litros, cheio de tralha. "Encontrei"!! Diz alguém:" Aí não cabe uma Sagres de litro…"! e ele a dar-lhe com a Sagres de litro! "Há sombras nesta terra? Abrir isto ao sol não dá jeito nenhum"! "Não há sombra, só Sagres de Litro"!" Tu levas com o taparuere nas ventas se não te calas com a conversa da Sagres de litro"! "Por falar nisso, também me está a apetecer uma imperial"! Bem… se não podes vencer junta-te a eles: "Tragam uma também para mim"! "Tremoços, peçam tremoços"! Desisto…

Então dentro do taparuere, que era mesmo um taparuere, com tampa amarelo berrante tipo fluorescente, daqueles que se levam para os piqueniques com as sandochas… (…lá estou eu a falar de comida…), estava uma data de tralha: um bloco, um compasso, (sim, um compasso, daqueles dos putos da escola!), uma dúzia de lápis de cor, uma caneta, uma mão cheia de cartões de visita e duas prendinhas de porcelana daquelas da loja dos 300. Tudo ao molho, cartões a voar, lápis roídos, folhas rasgadas, o Virgílio aos berros: "Eu escrevo, deixem-me escrever, eu tenho a letra mais bonita…"! E melhor deixar o homem escrever. Daí a pouco começa a perguntar: "Como é que vocês se chamam"? Lá o arrastamos para a sombra, prometemos muitas imperiais e começamos a ditar: ´Virgílio, Teresa, Rui, Cristina…" muito devagarinho, soletrando e com bastantes repetições. Nesta altura já andava tudo a abifarsse ao conteúdo da caixa e a enche-la da tralha que iam encontrando. Só acho que não cuspiram lá para dentro.

Caixa cheia, fechada, ultimas imperiais bebidas, mandamos o cachorro de volta para a casota, perdão o Rui voltar a por a caixa no sitio onde a encontrou, não tinha nada que andar a mexer onde não era chamado… ai o menino!
Mais ideias inteligentes: tirar fotografias do evento! Não só devíamos zarpar dali para fora rapidamente, como ainda tiramos fotos. Perdido por um, perdido por mil. "Tira lá a foto" Saca o rapazinho de uma maquineta e vira as costas ao pessoal, põe a maquina a apontar para o umbigo e espreita por cima, tudo em bicos de pés. AiAiAiAi! "Alguém tem telemóvel? Liguem para o 112, este já está". De repente, dá um salto, começa a fugir. Debandada geral, tudo histérico, cada um a correr para seu lado aos berros. Ouve-se um vozita lá atras: "Onde é que vocês vão? Só estava a ligar o temporizador, agora ia para o pé de vocês, para ficar na fotografia!" Volta tudo com ar de parvo. Lá tiramos a porcaria da foto ao mesmo tempo que se ouve: "Podiam esperar por mim. Eu também quero ficar.."! O outro ainda estava na casota… Repetimos a cena!
Voltamos ás motas. A esta hora o Virgílio ainda estava a desmontar cadeados se não ajudássemos. Aquele homem devia-se chamar Houdini. "Ok, vais tu á frente que é que sabes como é que saímos daqui"! "EU? Vamos todos parar a Freixo de Espada á Cinta"! Num cruzamento mais adiante, transito.
Paramos, "Onde vamos almoçar"? "Almoçar? A esta hora? Lanchar queres tu dizer"! "Desde que haja Sagres de litro tanto faz"! "Tremoços"! "Como é que tu te chamas"? "Quinhentos metros"! " Gostam de Leitão? Não? Não faz mal! Vamos a Negrais"! Bute…
Terrugem, Lourel, Ramalhâo, Cascais, Carcavelos, Alges, Alcântara, 25 da Abril, Almada, Coina, Alcochete, Vasco da Gama, Belas, Pêro Pinheiro, Negrais! Mais ¾ de hora de estacionamento. Nem o cheiro a imperiais os apressou. Se calhar era por já estarem digeridas… Lá conseguimos almoçar leitão, que até nem estava nada mal. No final era vê-los de sorriso amarelo: "Gostei muito", "Havemos de fazer mais vezes", "Porque é que demoramos tanto tempo"? Uma coisa é certa, no regresso a casa cada um foi por seu lado… fonix! Cheguei a casa, logo ali a 500 metros, (???????), já passava das 6!

A partir de agora só em viagem organizadas.
Fiquem bem! "

4 responses so far ↓

  • 1 MAntunes // Mar 7, 2005 at 20:24

    Sim! Este foi um dos momentos grandes da lista geocaching_portugal!

    É pena ele agora estar a perder o gás…

    Agora, os logs deles são histórias adiadas… 🙁

    Por motivos "ténicos". Diz ele…

  • 2 btrodrigues // Mar 7, 2005 at 21:30

    belíssimo relato.
    a minha primeira cache a sério também foi a da gertrude e também fizémos um relato de meio metro… hoje em dia os logs que o pessoal faz é "tava fixe, demos com a cena em 5 minutos e fomos ver os saldos do corte ingles"

    😛

  • 3 portelada // Mar 8, 2005 at 13:29

    é pa’!!! eu tento escrever a metro ..mas a inspiração nem sempre aparece !!!!

    Acho que um log grande responde pela satisfação do pessoal !!!  eu tenho feito, com algumas excepcões , mas até essas foram de prepósito para brincar !!!!

    . a e tal ….

  • 4 2 Cotas // Mar 8, 2005 at 14:37

    Já me lembrei de continuar as descrições, mas esgotei as ideias todas naquela…

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