O Ouro Roubado de Romarigães (pré-publicação)

Cachapim - 2006/06/28

Acordou sobressaltado com o barulho da aproximação dos perseguidores, uma populaça exaltada que não dava tréguas aos poucos sobreviventes do massacre da noite anterior. Ocorreu-lhe de imediato que não conseguiria passar desapercebido envergando ainda o orgulhoso uniforme do exército de Napoleão.

Ainda ontem tudo parecia correr bem. As tropas imperiais recuavam de regresso a França, desgastadas pelos ataques dos Ingleses de Wellesley e pelas emboscadas dos Portugueses de Silveira. Pelo menos voltavam para casa e, pelo caminho, iam acumulando pilhagens e matanças. E aquela casa de Romarigães – os camponeses chamaram-lhe a “Casa Grande” – parecia ser de gente abastada!

Era só vasculhar e encontrariam ouro escondido. Quando entraram na capela anexa à casa, um camarada veterano disse: “Este raio de fidalgos são católicos até aos dentes. Vejam bem. Aqui na capela, em sítio em que menos se pensa, é que eles são capazes de esconder o pognon”. Não demorou muito até encontrarem, debaixo da pedra do altar, o tesouro de Luís António de Menezes da Cunha e Azevedo.

Carregando o saque, seguiram para Norte, pelo Caminho de Santiago. Pouco faltaria para atingirem a segurança das terras de Espanha mas a noite surpreendeu-os numa encosta íngreme onde os populares sedentos de vingança aguardavam emboscados.

Foi uma chacina. Ele conseguiu escapar, nem se lembra bem como, carregando a arca com os dobrões da Casa Grande. Correu até cair de exaustão e adormeceu.

E agora aproximavam-se uma vez mais, ainda sedentos de sangue francês. Fugiu ao longo de um ribeiro, mas a arca pesava-lhe nos braços. Escondeu-a rapidamente, tencionando voltar quando tudo estivesse calmo. Continuou ao longo do ribeiro, mas depressa se apercebeu que estava encurralado entre duas intransponíveis paredes de rocha. “Sapristi! Misérables paysans!” Os camponeses já estavam demasiado perto para poder voltar para trás. Foi morto ali mesmo, ungindo de vermelho as límpidas águas do ribeiro de S. João. Com ele morreu o segredo do ouro roubado de Romarigães.

6 responses so far ↓

  • 1 Cachapim // Jun 28, 2006 at 00:46

    Esqueci-me de acrescentar que este pequeno texto é de autoria do Ouriço Cacheiro (o Cachapim só deu uns palpites: Sapristi! Misérables! eh eh eh) e foi inspirado pela leitura do fantástico romance de Aquilino Ribeiro, A Casa Grande de Romarigães. O livro acompanha a história dos senhores da Quinta de Nossa Senhora do Amparo, dos quais consta que o nosso Ouriço ainda é descendente, e a cache d´Os Cacheiros Viajantes aproveita para cruzar a dita história com um dos troços mais emblemáticos do Caminho de Santiago português.

    Ah, é verdade! Para encontrarem o Ouro Roubado de Romarigães vão ter que interpretar a heráldica do brasão dos Cunha D´Antas, saber o que é um "comedor de carne" e encontrar (e medir!) uma cruz que assinala o local do massacre dos franceses. Não se assustem, parece bem mais difícil do que é na realidade!

    A cache foi (ou está quase a ser) submetida para aprovação.

  • 2 bargao_henriques // Jun 28, 2006 at 10:37

    Que pequena maravilha!!!

    Acabei por não perceber muito bem se a história é 100% verdadeira ou 100% romanceada, mas uma coisa é certa… ESTÁ UM ESPETÁCULO!!!

    Muitos parabéns!

    Já agora, fico muito feliz por ver nascer aquela que penso seja a primeira cache sobre o Caminho de Santiago português, ainda que não seja exactamente sobre esse tema…

    Quando conheci um casal de geocachers alemães em visita ao nosso pais, que percorreram parte do caminho de santiago português durante a sua visita à península, fiquei logo com pena de não existir uma ou mais caches sobre este tema, ao longo do percurso… Será que entretanto vão surgir?

  • 3 Cachapim // Jun 28, 2006 at 12:35

    Do que se pode saber…

    Factos
    1. A Quinta de Nossa Senhora do Amparo, também chamada Casa Grande de Romarigães, foi realmente saqueada durante a retirada do exército francês na segunda invasão francesa (Soult).
    2. A referida "Cruz dos Franceses", que marca o local do massacre dos retardatários do exército francês, existe mesmo e é um ponto marcante do troço do Caminho de Santiago que liga Ponte de Lima a Valença.

    Factos/Ficção (?)
    1. De acordo com o romance de Aquilino, o tesouro da Casa estava mesmo escondido no altar da capela e foi roubado.

    Ficção
    1. A figura do soldado em fuga é pura ficção mas é sabido que a perseguição aos franceses em debandada durou alguns dias.

    P.S.: As cordenadas da Cruz dos Franceses não são dadas à partida, é mesmo necessário percorrer uma pequena mas exigente parte do Caminho de Santiago para a encontrar.

  • 4 2 Cotas // Jun 28, 2006 at 13:23

    Esta moda de publicitar as caches antes de elas existirem é de uma imoralidade atroz*.
    Por cause dessas e de outras é que há pessoal a tirar-se logo para dentro dos carros e a correr na escuridão da noite direito ao FTF sem se aperceberem que não existe ainda, não tem coordenadas e de pijama é mais difícil!

    Mas tábem, se não for micro, eu procuro-a!

    (* – Eu disse atroz, não disse atrás.)

  • 5 danieloliveira // Jul 3, 2006 at 18:37

    Money talks, gold sings!

  • 6 Cachapim // Jul 5, 2006 at 18:53

    Finalmente…

    O Ouro Roubado de Romarigães

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