Feed the birds

lynxpardinus - 2010/05/01

Liguei o GPS. Estava na praia, a gozar os primeiros raios de Sol, a ouvir o som suave das ondas do Mar do Sul das Caraíbas a rolar na areia na enseada, no fundo, a decidir o que fazer naquela manhã. Olhei para o ecrã. Sorri. Havia uma cache a menos de 1 quilómetro. Lancei um olhar profundo de despedida ao mar azul, com a fila de coqueiros alinhados na areia, a desaparecer ao longe. Virei as costas, tomei um duche e um pequeno-almoço rápidos e saí. Continuei em frente, passo após passo, através do portão do hotel, passando pelos guardas com um ligeiro aceno e um sorriso, GPS na mão, olhos na floresta luxuriante à minha frente.

“Feed the birds” era o nome da cache. “Será que deveria ter trazido alguma coisa para eles?”, perguntei a mim próprio, enquanto encontrava o largo caminho que subia a colina, rasgando através do verde. “Talvez algumas bagas? Grão? Sementes? Será que é permitido alimentar pássaros num santuário para aves?”. Ouvi o barulho dos pássaros a moverem-se à minha volta, sobre a minha cabeça. Olhei para eles. Pequenos e coloridos. Quem diria que pássaros tão pequenos seriam capazes de fazer tanto barulho? Continuei em frente. O GPS dizia apenas 200 metros. Não estava longe. Definitivamente, não estava longe. Passei pela porta da antiga fábrica, perdida no meio da selva tropical. Tudo estava em silêncio. Não se avistava uma alma, não se ouvia um único barulho. Mas eu sentia olhos a observarem-me – lá estavam os pássaros pequenos! Sorri-lhes. Estranho. Alguns deles pareceram sorrir-me de volta, com penas coloridas e aqueles olhos escuros e frios.

5 metros. Aha! “Tem que ser aqui!”, disse em voz alta no silêncio, sem estar minimamente preocupado com muggles ou os pássaros curiosos. Avancei. Agarrei o saco de plástico, com um grande sorriso – “A minha primeira cache em meses!”. Abri a tampa da cache. Estranho! Não tinha logbook? Apenas uma grande pena castanha. Enorme. Do tamanho do meu antebraço. E nessa altura, ao olhar para a pena, eu senti-o. Senti o silêncio. Senti o cheiro podre no ar. Senti dedos invisíveis de humidade a puxarem-me os olhos para cima, para o outro lado do carreiro. Até ao sítio onde ele estava. Só nessa altura o vi. Só nessa altura me apercebi da sua presença. Gigantesca. Quase do tamanho de um homem.  Com a constituição, as formas de uma águia, com aquele bico retorcido e afiado, as enormes penas castanhas, e aqueles grandes olhos pretos, fixos em mim. E aquele sorriso sarcástico que dizia “Eu pus a pena na cache. Eu pus a cache nas coordenadas. Eu pus as coordenadas na net” e eu percebia que eu tinha retirado as coordenadas para o meu GPS, eu tinha ligado o GPS, eu tinha seguido a seta do GPS até à armadilha. Eu tinha assinado a minha maldição.

Ouvi um forte barulho atrás de mim, como se um par de pernas gigantescas atravessasse a folhagem densa. E então vi o segundo pássaro atrás de mim. E depois o terceiro à minha esquerda. O último encurralou-me pela direita. O líder, o que eu tinha visto em primeiro lugar, lançou-me um olhar. Com aqueles olhos pretos e frios. E, então, ele fez um pequeno aceno com a cabeça aos outros. E todos eles carregaram em uníssono sobre mim. E, enquanto caía, eu vi os pequenos pássaros coloridos, a olharem para a matança, à espera do seu momento para se alimentarem.

http://www.geocaching.com/seek/cache_details.aspx?guid=7a07a2fb-16f3-4e66-adc1-8df1ca4ea62b

1 response so far ↓

  • 1 Silvana // May 3, 2010 at 14:52

    Excelente narrativa!
    A sensação deve ser a mesma da de cair no caldeirão de uma tribo de canibais na Nova Guiné. 😉
    Olha que no Douro Internacional, os grifos são menos sedentes de sangue! 😀 Lol!

    Parabéns pela aventura! Espero que continues vivo para contar a próxima.

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