Eu pecador me confesso…

2 Cotas - 2006/02/20

Já tinha conseguido perceber qual a diferença entre quente e frio. Entre conversar com os colegas e espiolhar a concorrência. Entre classificar e por defeitos.

Só não consegui perceber qual a diferença entre Dinamarqueses e Árabes. Nem o Lágrima de Preta(*) ajudou muito. E se lá formos só pelo tamanho, quer-me parecer que a coisa devia ter evoluído há muito para os mais avantajados. Por isso falta-me qualquer coisa. Serei só eu, ou há outros? Não querendo ser fundamentalista na minha opção mais fundamental, há caches de primeira e de refugo. Melhores e piores. Foleiras e bem esgalhadas. Há boas pessoas e mazelas ambulantes. Bons fins-de-semana e horas de granizo na moleirinha. Alegrias e tristezas.

Não tenho nada contra as caçadas em grupo, a solo ou aos pares. Cada um caça como quer, e se puder colocar as unhas no livrito das visitas, faça favor. Não há classificação para primeiros, últimos ou batoteiros. Se escreveu lá, conta, se não escreveu lá, não conta. Por outro lado se acha que sim, faça, se acha que não, não faça. Isto porque o meu objectivo não é subir na classificação, mas ir lá, resolver as dificuldades, pegar na coisita, rogar-lhe umas pragas. Em resumo, cumprir as regras.
E nada nas regras diz que eu tenho, devo, preciso de botar defeitos nas pessoas. Por isso botar defeitos nas pessoas não é Geocaching.

Contra os HelpDesk ou ajudas. Vendo bem, se a ideia é ir ao sítio, ver a vista ou resolver o problema, não importa se ajavardei no livrito ou não. Tanto conta sendo o primeiro, como o ultimo, o do meio ou o da ponta. Os primeiros são sempre os mais sacrificados, basta lá terem ido para se saber que esta. Escrever o log para se saber que se pode encontrar. Contar a história para se perceber como é que a coisa funciona. Se é difícil, se demora. Até se vale a pena. Eu contra todos? Eu contra os gadjets? Eu a divertir-me? Eu com os meus conhecidos e amigos?

Se já fiz? Já fiquei de olho na coisa mais do que o normal. Já andei com algumas debaixo de olho tempo suficiente para se terem passado, desaparecido, sido arquivadas. Já tentei perceber se a coisa era mesmo assim ou se não era bem assim. Ou se não era mesmo nada assim. Já desbronquei privada e indecentemente, alguns desgraçados que se atreveram a colocar caches fatelas, mal feitas ou simplesmente foleirosas. Ou ainda porque já tinham obrigação de fazer melhor. Assim como fiquei especialmente de olho nas minhas a pensar se pensei a coisa bem ou aquilo é mesmo uma bosta. E algumas foram.

Todas contam um. Posso achar que contar 1Found por uma cache como as Aranhas é ridículo comparado com outra qualquer que está á borda da estrada debaixo de uma ardósia. Posso. Mas não acho. Porque posso escolher só as fáceis. Escolher só as novas. Escolher só as perto. Só as boas. As que demoram só 10 minutos. Ignorar as multis, as maradas. Mas se escolho a Efigénia, a das Portas de Rodão, se quero fazer a da N.S. da Peneda na 200 ou se, em geral, ignoro as de cidade e dificilmente tento segunda vez um falhanço, a minha contagem tem que ser corrigida com um factor de quê? Já procurei e encontrei caches que não contabilizei. Já demorei semanas para procurar caches a 50 metros.

Batota? Claro!Já escrevinhei umas balelas quaisquer num livrito que ignobilmente nem sei quem achou. Já perguntei descaradamente, por telefone, ao vivo, pela Net, onde é que raio estava aquela “me’tha”. Já olhei gulosamente as dicas, 5segundos, 5 minutos, 5 horas depois de lá ter chegado. E já me aconteceu nem ter tempo de ler a dica. Já fiz ar de profundamente distraído quando estava completamente interessado. Joguei a p’’a do joguito.

Ajudo? Claro! Se já suicidei alguns em situações de aperto, de frustração, de receio ou simplesmente porque me apeteceu, mas vezes suficientes para "ter" reduzido drasticamente a comunidade geocacheira nacional, ajudo pois. Sempre. Se acham que abusei, desculpem lá, mas vão ter que se habituar.

Não somos todos iguais. O Benfica perdeu. Não há sol que me aqueça… Ora saiam lá 10 Avés e 20 Marias para mim, faxavor!

13 responses so far ↓

  • 1 lopesco // Feb 20, 2006 at 14:05

    Belo momento!!

  • 2 Rechena // Feb 20, 2006 at 14:08

    5 estrelas

  • 3 btrodrigues // Feb 20, 2006 at 14:34

    clap clap clap clap clap clap

    como sempre, na mouche.

  • 4 HDV // Feb 20, 2006 at 15:41

    Boa tarde Diamantino,

    Assumindo que o seu artigo surge como resposta aos «7 Pecados Capitais», é antes de mais bom reparar que, ao contrário do que sugere, em parte alguma se «põe defeitos» em pessoas em particular ou de outro modo se personaliza ou fulaniza o que não é mais do que uma «proposta», certamente discutível, de princípios gerais de boa prática a grande parte dos quais, longe de contrariar, no plano ideal do conceito, o Diamantino até parece reconhecer nexo.

    A «Teologia» – porque em matéria de «mandamentos», «pecados» e outras comiserações «morais» é dela que estamos a falar – não trata da «realidade» a que estamos atidos mas das grandes orientações gerais que devem presidir à salvação das almas; não perde tempo com as grandezas ou as misérias de nenhuma criatura em especial (até porque todas as pessoas são pequenas ante a Obra do criador), trata de «valores». Era esses (princípios) que, para haver utilidade no debate, se deveriam estar a discutir (se é ou não «decente» aldrabar as regras – e, se realmente estamos todos de acordo que afinal isso não importa nada, então porque é que assistimos à persistência de uma prática que o contradiz?). E sobre isso, para além dos expletivos cómodos e vagos – ninguém se pronuncia.

    De resto, somos todos, certamente, de uma maneira ou de outra, «pecadores».

    Cumprimentos,
    HDV

  • 5 2 Cotas // Feb 20, 2006 at 16:21

    Hãmmm?

    Óh homem! Isto não é um jogo de equipa!
    Se já nesses é problemático por todos a jogar no mesmo sentido, imagina lá neste. Este é mesmo e fundamentalmente um jogo de pessoas! Só! Sós!
    A contagem é um pormenor, não um objectivo. Por isso quero lá saber se o tipo tem mais ou menos. Mais comprido ou inepto. Se é mais potente ou mais rápido. Se fez batota ou não…; interessa-me tanto quanto saber se a Maria do vizinho do lado finge orgasmos. Não quero mesmo saber. Ao contrário seríamos todos ZesZes Camarinhas, o que convenhamos não é propriamente objectivo por ai além. Acho.

    O meu gozo é mesmo ir lá, ver o fundo ao buraco, ouvir o eco.
    Os outros podem querer ouvir mais ecos. O que, mesmo que se tornem morcegos, se me torna quase indiferente. Ou dizer que foram mas não foram. Assim tipo puto imberbe, terror das catraias, destramente exercitado.

    Como dizia o outro, a chuva a mim não me dissolve e a pele é impermeável. Fica bem, peca sempre que puderes e não te chateies. Não vale a pena…;

  • 6 Bsaavedra // Feb 20, 2006 at 22:23

    Para quando um debate televisivo ???

    Para mim seria muito mais interessante e importante ouvir e ver um debate sobre o geocaching do que ver politicos sem nivel a falar de coisas que não sabem.

    Gostei especialmente disto:

    "…interessa-me tanto quanto saber se a Maria do vizinho do lado finge orgasmos."

    PS: O fundamental do jogo é chegar lá tenho poucos founds mas orgulho-me de todos eles como se fossem um só.

  • 7 olharapo // Feb 21, 2006 at 00:15

    Sabem aquela do aluno marrão, mesmo cromo, óculos fundo de garrafa de champanhe, cujo melhor amigo é o condutor do autocarro que o leva para a escola?

    Um belo dia ia a descer a maior escadaria da escola e escorregou. Até se imobilizar no fundo da escada, com os livros à sua volta tipo paleta de pintor, demorou uns demorados segundos.

    Naturalmente conseguiu o seu momento de maior exposição mediática, arrancando umas demoradas gargalhadas a toda a escola.

    Para não dar parte fraca, levantou-se num salto tão rápido quanto as dobradiças lhe permitiram e disse convicto: “CADA UM DESCE A ESCADA COMO LHE APETEÇE!!!”.

    O geocaching é mais ou menos assim.

    Cada cache é criada para proporcionar satisfação a quem a caça assim como ao seu criador, pela satisfação proporcionada. E cada um caça como entende. Com ou sem GPS, com ou sem calças, com ou sem companhia, com ou sem sol, com ou sem chuva, com ou sem hint, com ou sem trade, com ou sem cache…

    Cada geocacher tem o seu ponderador de satisfação que reage a estímulos específicos. Esta diversidade permite a quem vai acompanhando a coisa, estabelecer um perfil do comportamento dos outros. Uns caçam enquanto almoçam, outros só de noite, outros deixam sempre preservativos na cache, outros caçam com a filha, outros com o cão, outros só caçam em múltiplos de dez por fdsemana, outros só procuram caches quem não exijam muito esforço, outros nenhum, outros fazem logs tipo telegrama, outros fazem logs tipo testamento. O jogo é mesmo assim. Cada um é juiz de si próprio.

    As diferentes abordagens da coisa são perfeitamente naturais e até salutares. A diversidade valoriza a comunidade (até rimou!!) e eu gosto dela assim…

  • 8 clcortez // Feb 21, 2006 at 02:08

    Devo considerar este artigo muito bom. Literariamente muito completo e rico. Gostei.

    Na minha opinião seria mais saudável trasportar estas ideologias e panoramas para os meetup´s, para os geoeventos, para as caçadas em grupo. É muito giro ewscrever artigos mas eu prefiro as conversas cara a cara, onde se dá o tom correcto ao tema, e onde o diálogo é composto por perguntas e respostas, remates e interrupções de parte a parte. Nem só de caches vive o geocaching, também há a amizade a convivência e a partilha. Valores importantes e que tanto me orgulho de os ter nos geocachers portugueses.

    Pensem nisto.

    Ainda hoje recebi uma resposta a uma tradução que fiz para um geocacher espanhol ( chrisanza ) de uma cache minha congratulando-me pela qualidade, profissionalismo e interesse das minhas caches e das portuguesas no geral. Amigos, sabem o que significa isto? Que o geocaching de facto não é feito de números, contagens ou FTF, mas sim de PESSOAS. São os geocachers que alimentam este jogo e são eles que me continuam a mover!:)

    Obrigado a todos e vamos continuar em grande! Força nisso rapaziada!:)

  • 9 lumacafi // Feb 21, 2006 at 03:08

    Eu um mísero iniciado nestas lides… gosto de explicar as pessoas que me rodeiam que o geocaching é um hobby.

    A tradução óbvia e literal de hobby para o nosso português é passatempo.
    Como com qualquer passatempo, o objectivo é divertirmo-nos enquanto o tempo passa.

    Como também é óbvio cada um diverte-se de várias maneiras e com coisas diferentes.

    Pessoalmente encaro o geocaching como um jogo. Não um jogo onde quem tiver mais caches encontrada ganha, ou quem tiver mais FTF´s ganha.
    Mas um jogo onde resolvo puzzles, exploro locais novos e insuspeitos, se falhar posso sempre tentar novamente.
    No fundo não difere muito de um qualquer videojogo.

    Gosto de ir a correr as 4 e meia da manhã acordar a WonderUrsa aos gritos pq consegui finalmente descoficar o código de Vega. Gosto de andar no alto de um monte com o vento a fustigar-me as orelhas e a picar-me em vários cardos e de subitamente ver um saco plástico.

    No entanto a primeira coisa que faço ao ler uma nova cache é descoficar o hint.
    É acto continuo e sistemático.

    E faço-o partindo de um simples principio, a cache está num local que vale a pena ser visitado. Onde eu e a maria vamos gostar de estar.

    Se o local não é dos mais agradaveis, está a chover, ou pura e simplesmente já não nos estamos a divertir nessa altura, recorro imediata e prontamente ao helpdesk. E sem o menor problema de consciência.

    Ao próprio autor deste excelente artigo,  eu admiti ter feito batota numa muito badalada cache sua. Cortei caminho, usei o cérebro em vez das pernas. Visitei o local onde era suposto estar e não encontrei, roguei 20 mil pragas ao autor, ao guarda da psp que me queria autuar por ter o carro mal estacionado, aos pombos por estarem com gripe.
    Mas conheci um local onde nunca tinha estado em toda a minha vida, tirei fotos lindissimas, andei a pé. Foi um DNF, não faz mal. Voltarei lá um dia destes…

    O exemplo anedótico que o olharapo colocou acima para mim é realmente a essência do geocaching. Cada um se orienta como pode. Cada um se diverte como sabe.

    Faço dezenas de DNF dos quais nem saio do carro, chego ao local, estou a 150 metros da cache. Olha na direcção da setinha e eis um carro da PSP estacionado, com dois agentes a comer um big mac. Mas a vista é excelente.. bora dar uma volta ao local, foto praqui.. foto prali. Passei tempo. Diverti-me. 0 Founds… não faz mal.

    Na minha humilde opinião, não há maneiras certas ou erradas. Não há dogmas. E exactamente isso que me atrai.
    Atrai-me até onde a mente humana é capaz de conceber maneiras de dificultar a vida ao próximo e até onde o próximo é capaz de se safar das mesmas dificuldades.

    Cache on…

  • 10 vsergio // Feb 21, 2006 at 11:38

    São realmente os bons momentos do Geocaching que fazem desta actividade a minha "terapia" (by btrodrigues).

    E os bons momentos são as Expedições que temos feito, quer sejamos 30 como na Arrábida, 14 nas Meetballs, 20 no ElBuraco, 5 na maioria das minhas cachadas de Fim-de-Semana… se eu fosse Logar Founds pelas que encontrei sozinho tinha… 1Found (e acho q nunca mais farei outro).

    GEOABRAÇOS

  • 11 ppinheiro // Feb 27, 2006 at 21:32

    …são o que eu mais gosto do geocaching.  Comecei por procurar tupperwares no mato e acabei por encontrar grandes amigos.

  • 12 danieloliveira // Mar 1, 2006 at 09:04

    Pedro e Ségio,
    têm toda a razão! Muito bem expresso. A verdade acaba sempre por superar.

  • 13 btrodrigues // Mar 2, 2006 at 12:26

    e viveram felizes para sempre. considere-se a thread fechada.

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