Expedição Scientífica à Serra da Estrella

Cachapim - 2006/09/22

A conquista do Cântaro Gordo

Abro o pequeno caderno azul e leio o que escrevi, “Um gigantesco promontório de pedra, projectado do planalto central na direcção do vale glaciar do Zêzere.” O Cântaro Gordo. É dizer tudo e pouco ao mesmo tempo. E quase nada afinal.

Ainda não são onze horas quando começamos a primeira parte do percurso que nos vai levar do parque de abrigo do Covão da Ametade até à Lagoa dos Cântaros, na base do Cântaro Gordo. A neve dos dias anteriores é uma presença ocasional no Cântaro Magro, esperamos apenas que o percurso até ao cume do seu irmão titã esteja acessível enquanto o degelo, acelerado pelo sol, transforma todo o parque num rumorejar de ribeiros e pequenas cascatas. Avancemos.

Abordamos calmamente o percurso semi-circular que nos vai fazer sair do Covão da Ametade, virando as costas aos Cântaros e rodeando um braço mais longo do Gordo. São dois quilómetros e meio de um trilho razoável para transpor cerca de duzentos metros de desnível até chegar à tranquilidade da Lagoa dos Cântaros. Quando chegamos, somos brindados com um espectáculo saído de um documentário sobre a vida animal: um pequeno falcão com residência na escarpa sobre a Lagoa dá vazão aos seus instintos territoriais e pica cruelmente sobre uma cegonha negra atraída pelas inúmeras rãs que pululam na lagoa. Apenas vinte ou trinta metros sobre as nossas cabeças, o falcão esforça-se por derrubar a cegonha que esquece a refeição e tenta voar o mais rapidamente que pode dali para longe. O encanto do local apodera-se de todos. Do lado de lá da lagoa, o Cântaro Gordo é uma espectacular parede de rocha com algumas boas dezenas de metros de altura. Passam pouco minutos do meio-dia, tiramos as primeiras fotografias, comemos qualquer coisa e procuramos a primeira cache. Já está.

Estará? Não está, não… As coordenadas da segunda cache, a cache intermédia que tantas dificuldades irá oferecer, obrigam à resolução de um questionário relacionado com o alpinismo e a conquista do Evereste. Infelizmente, o wiki-material de referência levado revelou-se insuficiente. E aqui deu-se um pequeno milagre: no alto de uma grande pedra, por uns breves minutos, consegui uma ligação à Internet através de GPRS. O suficiente para googlar a informação em falta e obter as coordenadas da cache seguinte.

A subida da formação rochosa é feita pelo topo da crista, mal se atravessa o pequeno ribeiro que serve de ladrão de água à lagoa. A progressão torna-se mais difícil e física a pouco e pouco, mas a paisagem é cada vez mais extraordinária. Perto do local da cache é necessário mudar para a face norte da crista que se encontra com bastante neve e gelo. Alguma coisa nos diz que isso pode ser um problema quando chegamos à conclusão que a cache está colocada numa enorme rampa, cujo acesso por baixo se encontra bloqueado pela neve.

A única maneira de alcançar a cache agora é por cima, mas isso implica descer uma rampa. O Cache-a-lote decide-se e começa a descida. Eu deito-me sobre uma enorme rocha e tento orientá-lo na descida até deixar de o ver. Passa algum tempo. Nada. O Robin ganha coragem e começa a descida para se juntar ao Cache-a-lote. O Ouriço olha para mim e diz, “Espero bem que não tenhamos que descer nós também…”. Quando na minha cabeça se punha a hipótese de continuar a subida até ao topo sem o “found”, ouvimos um grito triunfante do Cache-a-lote! Por um metro que a cache não estava sepultada debaixo de uma enorme massa de gelo e neve. Tivéssemos chegado uns dias antes e nunca encontraríamos a cache intermédia!

São três e meia da tarde e a vista sobre o Vale da Candieira e a Lagoa do Peixão (ou da Paixão?) são reconfortantes. Vamos atacar a última parte, agora que temos as coordenadas da cache final. A progressão é ainda mais difícil e a nossa memória lembra-nos a cada instante que caminhamos sobre a parte superior daquela brutal parede de pedra que tanto nos impressionou. É preciso transpor alguns blocos de pedra e os bastões já não ajudam: calço as luvas de trabalho para me agarrar às pedras. Uma pequena pausa para reunir o grupo, beber água e estudar a abordagem ao topo, defendido por grandes blocos de pedra. Não olhar para baixo, não olhar para baixo. “Ouriço, olha a lagoa dos Cântaros, tão pequena lá em baixo!”, diz o Cache-a-lote sem sombra de vertigens. “E achas que eu consigo ver isso, neste momento?”, resmunga o Ouriço.

Na passagem final para o cume, o Ouriço deixa cair o GPSr, mas o som sugere que não se terá despenhado. O Cache-a-lote abraça-se à rocha e tenta ver do outro lado. “Deixa o GPSr! Que se dane!”, grita o Ouriço a pensar no bom pretexto para comprar um novo CSx. Mas a bravura do Cache-a-lote consegue o resgate do aparelho, marcado apenas por mais uns riscos no vidro do ecrã.

Na transposição do último obstáculo, o excesso de confiança e a perna curta fazem com que dê uma enorme joelhada na pedra. É a coxear e a murmurar impropérios que chego ao cume do Cântaro Gordo. Felizmente há bastante gelo lá em cima para controlar o hematoma.

São quase cinco da tarde e a cache final está ali à mão. A vista é avassaladora. Estamos na ponta do promontório e vemos tudo à nossa volta: o Cântaro Magro, o Covão da Ametade, o Vale da Candieira, o Piornal, o Vale do Zêzere. Quase não há vento. Este é um sítio para dizer aos netos, “Eu estive ali em cima”.

Encontrada a cache final, feito o logue e tirada a fotografia com a máquina descartável que estava presente na cache, pegamos no material e começamos o caminho em direcção à zona das pistas de esqui, convencidos de que seria a parte mais fácil. Tremendo erro! Algumas dezenas de metros de caminhada sobre o promontório e deparamos com um abismo a cortar o caminho! A fotografia da página da cache confirma a hipótese. O caminho de volta exige uma descida a partir do topo, através de uma pequena porta meio escondida e descendo por um trilho arriscado até uma pequena zona intermédia e uma nova subida em direcção ao planalto e aí sim, em direcção às Chancas e à estrada.

Durante esta última parte da caminhada vamos encontrando cada vez mais zonas com neve. Já passa das seis horas quando nos aproximamos da estrada e estabelecemos contacto com o grupo de recolha. As nossas expressões revelam uma mistura feliz de cansaço e euforia. É preciso ir recolher o KIA ao Covão da Ametade e rumar ao Sabugueiro para um bom duche e um jantar apaziguador.

O Cântaro Gordo é um dos locais mais extraordinários de Portugal e o nat_cache fez-lhe justiça com uma cache muito bem preparada e conseguida. Como diz um dos meus poetas preferidos, Ruy Belo de seu nome, “É tudo serra, custa muito subi-la”. O desafio do Cântaro Gordo é uma oportunidade rara de conhecer este local extraordinário e de nos conhecermos por dentro um pouco mais. Quem tem amigos nunca está sozinho. Aproveitem.

“Um gigantesco promontório de pedra…”. Está na hora de fechar o caderno azul.

* Música: “Ça Ira”, Roger Waters

11 responses so far ↓

  • 1 jcpmleal // Sep 22, 2006 at 17:43

    Concordo que esta é uma bela cache, no entanto não posso deixar de afirmar que julgo que o questionário cujas respostas fornecem as coordenadas da cache 2 é, dado o nível de dificuldade intrínseco desta multi, perfeitamente desnecessário (assim como o que fornece as coordenadas da 3, mas a esse não cheguei a pôr a vista em cima).
    Já a tentei em família (TheFab4) e, como quase ia acontecendo convosco, fomos frustrantemente detidos por não conseguirmos descobrir a cache 2.

  • 2 Cachapim // Sep 22, 2006 at 17:59

    Sim, posso concordar com essa perspectiva. Confesso que o facto de termos conseguido responder ao questionário se deveu a:
    1. Fazer o trabalho de casa (conselho sábio do mantunes, vénia) e levar páginas da wiki sobre o Everest;
    2. Tecnologia (conseguir aceder ao Google na cova da lagoa dos cântaros);
    3. Muita, muita sorte em ter conseguido chegar às respostas correctas.

    Quando consegui as respostas dancei uma pequena dança da vitória em cima de um enorme rochedo onde tinha trepado para obter um tracinho de rede!

  • 3 jcpmleal // Sep 22, 2006 at 18:47

    Acrescento ao comentário anterior que o relato da vossa conquista do Cântaro está muito bom.
    Foi um prazer lê-lo.

    João Leal

  • 4 ricardorsilva // Sep 22, 2006 at 20:23

    Uma grande expedição, sem dúvida!

    Lynx Pardinus

  • 5 MAntunes // Sep 22, 2006 at 20:35

    Este relato está realmente muito bom! (vénia).

    Fez-me lembrar o outro das "Aranhas" que teve o condão de me entusiasmar a organizar a caçada colectiva mais difícil mas também mais agradável em que participei.

    Se calhar, qualquer dia desafio os meus parceiros habituais nestas coisas (eles sabem quem são ;-)).

    Mas, sobre esta cache, o que me preocupa é a possibilidade de me atirar a uma cache exigente e, depois de fazer centenas de kms e andar um percurso difícil, não conseguir descodificar as coordenadas do ponto seguinte… É que a sorte não aparece sempre que se precisa dela…

  • 6 Cachapim // Sep 22, 2006 at 21:48

    Tinha prometido escrever qualquer coisa sobre esta nossa expedição, não imaginava que iria demorar quase cinco meses. Aposto que o Lynx Ricardus já pensava que eu não cumpria as promessas…

    MAntunes, amigo, isso dá para fazer é num geo-acampamento de Verão para o próximo ano, baseado nos parques de Vale do Rossim e/ou Covão da Ametade.

  • 7 2 Cotas // Sep 23, 2006 at 00:02

    Com essa conseguiste que enfiasse com mais uma na lista das "to do".
    É disto que eu gosto no Geocaching.
    (bem… não só!)

    Parabens.

  • 8 rebordao // Sep 23, 2006 at 10:13

    …por nos teres trazido algumas emoções de volta. Os momentos vividos não foram exactamente os mesmos, mas deu perfeitamente para voar até lá e reviver alguns. Esta é sem dúvida uma daquelas caches que não se esquecem.

    Quanto às perguntas nas caches intermédias e a forma como a cache está feita…; há que tentar perceber o que motivou o owner. Convínhamos que não é uma cache fácil e que não convêm ser alvo de um geocacher que passe por ali fortuitamente, ligue o GPS por curiosidade e decida fazer aquela à escolha sem o mínimo de preparação (aproveito para lembrar que é um dever deixar um aviso com a GNR na torre antes de partir). Se a forma de dissuadir estes casos adoptada pelo Owner será a melhor ou a única…; não sei e sinceramente acho que é algo que fica ao critério apenas dele! O que sei é que houve uma preocupação consciente e por isso temos de lhe agradecer. O que se tem de pensar é que a cache foi desenhada assim! É um jogo e este jogo tem estas regras! Não é impossível de resolver! Está difícil, aumenta o desafio, provoca frustração…; medo da derrota…; é ou não é uma delicia :)?!!

  • 9 Cachapim // Sep 23, 2006 at 10:58

    …é uma realidade presente nesta cache. E é um facto para o qual o autor da cache alerta na descrição da mesma.

    Uma das situações que poderá ter consequências complicadas é ficar "preso" no topo do Cântaro Gordo porque anoiteceu ou por causa do nevoeiro ou outra complicação meteorológica. Sendo assim, deve ser para fazer no Verão, com bom tempo e partindo relativamente cedo do Covão da Ametade. Uma entorse a meio do caminho também pode ser um grande problema.

    O João Leal disse que tentou em família (TheFab4) e, embora eu não saiba a(s) idade(s) do(s) filho(s), a última fase do percurso é definitivamente "no kids"!

    Diamantino "2 Cotas", a minha principal motivação ao escrever estas pequenas croniquetas é partilhar os momentos especiais que o Geocaching e a sua comunidade me proporcionou. Do pico da Nevosa ao Cântaro Gordo. Sem palavras caras, para não cansar as mãos e para não espantar leitores…

    Ainda bem que está na tua "to do list", acredita que vale bem o esforço, era essa a minha ideia!

  • 10 ricardorsilva // Sep 23, 2006 at 11:02

    … mas lá que tinha curiosidade por ler este relato, lá isso…

    Lynx Pardinus

  • 11 clcortez // Sep 23, 2006 at 21:22

    Sem dúvida mais um relato o mais alto nível.
    Um bom relato é aquele que à medida que o vamos lendo nos vai criando na alma a sensação que estávamos lá! E este é um dos casos.

    Manel, não precisas de dizer mais nada! Deixo ao vosso critério os primeiros pensamentos sobre esta "expedição". Daqui a pouco faz um ano que fizémos a expedição "From Heaven to Spyders Expedition" e que melhor maneira de da assinalar!:)
    Bom, se calhar estou a ser demasiado ambisioso…pensem e usem os canais habituais de comunicação.

    Cláudio Cortez

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