Six Feet Under e João Bénard da Costa no Público

Cachapim - 2006/12/10

Vai fazendo por estes dias um ano (12/Dez) que se aproveitou um solar dia de Dezembro  para um passeio aos segredos da Arrábida. Ponto de encontro em Azeitão, descida à Lapa do Médico (6fu), choco frito em Setúbal e anoitecer na meia montanha. Devo dizer que se a natureza me fascinou, a companhia também foi do melhor. Lembram-se?


Ora quis o destino, que nestas coisas é quem manda, que o Público de hoje me surpreendesse com a crónica do João Bénard da Costa. Ora leiam lá, se tiverem paciência…

Quote:
"(…)A meia-encosta, no chamado Monte Abraão, fica situada a Lapa do Médico, assim chamada porque quando foi casualmente descoberta (século XVIII) se encontrou lá no fundo um esqueleto que aprouveram identificar como o do curandeiro misterioso, que deu nome à Fonte e à Mata ditas do Solitário, o qual apareceu na Arrábida tão misteriosamente como dela desapareceu. Teria descoberto a gruta e não conseguiu sair de lá.
A Lapa do Médico mete algum respeito. Entre fragas e penhascos de razoável dimensão, o que se vê é um buraco no chão, onde mal cabe uma pessoa. Indo por ele abaixo chega-se a uma espaçosíssima galeria que, por sua vez, sempre na vertical e no sentido das profundezas, dá acesso a muitas outras, numa descida de mais de 100 metros. À primeira galeria ainda chega alguma luz, vinda do buraco matricial. Dela para baixo, a escuridão é total, e quem se desviar do caminho certo (assaz difícil, e que exige o conhecimento de certos preceitos) arrisca-se a queda de quebrar todos os ossos do corpo e a nunca mais sair de lá.
Foi Sebastião da Gama, o poeta, quem ma revelou, ainda os anos do século passado eram 40. Várias vezes me levou e eu aprendi bem o caminho. Aí pelos meus 18-20 anos, comecei a ser guia de inúmeras excursões de parentes e amigos, todos com muitas velas ou lâmpadas eléctricas. Susto e risco combinavam bem e era raro o Verão em que a descida à Lapa do Médico não fosse programa obrigatório, sempre envolvido nalgumas peripécias.
Em Agosto de 1966 – eu tinha 31 anos e já conhecia a Lapa como os meus dedos – resolvi dar um passeio na serra com os meus filhos João Pedro e Ana (ele com 7, ela com 5) e com um sobrinho meu, o Tiago (6 anos). Pediram me muito para eu os levar à Lapa, tanto tinham ouvido falar dela como coisa para crescidos.
Cogitei que, levando um por um ao colo, a descida do primeiro buraco não seria problema de maior. Meti nos bolsos uns coutos de velas e o meu sobrinho insistiu em levar uma minúscula lâmpada de bolso, que lhe tinham oferecido e dava a mesma luz que os olhos de um gato bravo em noite de breu. Se bem o pensei, melhor o fiz, sem dar conta das minhas intenções a qualquer outro adulto.
Tudo se passou muito bem na primeira descida e os miúdos estavam exultantes. Tanto o estavam que fui tentado a proporcionar-lhes o circuito integral. Um ficava com a luz, eu pegava noutro ao colo e assim sucessivamente, até chegarmos não digo ao centro da terra mas a razoável profundidade dela. Foi no regresso que tudo se complicou.
O meu filho, que herdou de mim uma destreza manual quase nos limites do patológico, deixou cair um dos coutos que se sumiu nos algares. Só então comecei a suar frio. Recomendando o maior cuidado com o único couto restante, agarrei em mais uns ao colo e trepei pela estalactite escorregadia. Subitamente, um “ah” de criança em falta e o segundo e último couto a seguir o caminho do primeiro. Escuridão absoluta. Um passo em falso das crianças e a tal queda. Fiz as minhas contas. Primeiro que dessem pela nossa falta e que decidissem procurar-nos, haveria à vontade que esperar umas três horas. Seria noite cerrada. Chegar à Lapa de noite, mais uma hora, pelo menos. Nem todo o meu vasto reportório de histórias ia chegar para manter quietas e sem medo três crianças, por mais que eu me esforçasse por as manter calmas, tarefa que não ia ser nada fácil. Antevi o pior e antevi-o como certo.
Foi então que o Tiago me lembrou a lampadazinha que iluminava meio palmo. Pois foi com ela e puxando-lhes pelos braços e pelas pernas, entre abismos verdadeiros e não poéticos, que eu consegui, com a velocidade permitida pela adrenalina, chegar cá acima sem ninguém se ferir. Quando voltei à superfície, tremia como nunca tremi na vida. Graças a S. Pedro de Alcântara – não duvido – levitara das profundezas do Baixíssimo para os Altíssimos da Arrábida. Aclamei-os como heróis, até porque nenhum deles se assustou por aí além. Quando chegámos a casa, eles vinham ufanos e eu nem consegui sentar-me à mesa a fingir que comia.
Estava a passar férias connosco o Nuno de Bragança, que mantinha um diário. Muito mais tarde, li o que ele tinha escrito referente a esse dia: “À tarde, o João, com estarrecedora inconsciência, enfiou-se numa gruta e arriscou os nervos de três crianças para o resto da vida.” Duro mas certeiro. Não fosse o espírito da Arrábida, talvez mesmo as três crianças não tivessem tido resto de vida. E a minha teria sido bem diversa. Mas nunca a Arrábida me podia ter feito tal mal. Hoje, eu já não desço à Lapa do Médico. Mas eles e os filhos deles continuam a ser assíduos visitantes, limitando-se a acrescentar às muitas histórias tenebrosas do esqueleto do local, mais esta de que foram inconscientes protagonistas. Fez 40 anos no Verão passado."

7 responses so far ↓

  • 1 MAntunes // Dec 10, 2006 at 22:34

    Afinal não somos assim tão malucos…

    Ir lá para dentro sózinho com duas crianças? Sem a companhia de outro adulto? Válávai…

    Só não concordo com a distância dos 100m. Parece-me exagero.

  • 2 olharapo // Dec 11, 2006 at 00:06

    Se cá estivermos, como veremos os nossos logs daqui a 40 anos?
    E os nossos netos, o que acharam de alguns deles?

  • 3 btrodrigues // Dec 11, 2006 at 02:00

    Brutal.
    Belíssimo contributo.

    A minha mãe passa-se quando lhe conto que me enfio em grutas como essa, que ando a trepar paredes de rocha, que perco chaves do carro à noite nas rochas do cabo da roca e que ando a subir às árvores. Eu rio-me. Rio-me muito e sinto-me bem. A psicóloga, aquisição recente da família, diz que o problema foi de não ter ido para os escuteiros em puto. E eu acho, sinceramente, que quando era puto não apreciava as coisas tão intensamente como o faço agora.

    O mais importante de tudo, sabem o que é? É partilhar isto tudo convosco. É por isso que o geocaching é tão importante para mim. Que sou, afinal de contas, apenas mais um…

  • 4 MAntunes // Dec 11, 2006 at 10:50

    E olha que eu não tenho uma psicóloga na família.

  • 5 Cachapim // Dec 11, 2006 at 19:43

    Artigo completo de João Bénard da Costa no Público de 10 de Dezembro, em versão PDF, aqui.

  • 6 vsergio // Dec 13, 2006 at 19:16

    Seremos sempre uns putos. Assim espero. E o Geocaching é isso que nos proporciona, juventude. É por isso que também gosto tanto disto.

  • 7 vsergio // Dec 21, 2006 at 00:03

    Olha… já houveram praí mais uns recentes "gandas malucos". Uns encontraram, outros nem por isso. Para estes últimos, decerto que quando escreveram o log, o escreveram com tanto entusiasmo como se a tivessem encontrado!

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